terça-feira, 24 de julho de 2012


A Criação Artística com Rilke e Bausch
Sempre que assisto a algum espetáculo que me afeta, penso no quanto pode ser rica e simbólica uma obra de arte. O poder de comunicação nesse caso vai ao extremo, vai além da nossa articulação linguística.
Uma vez ao sair do teatro ouvi uma pessoa que dizia: “Não entendi nada, mas gostei p'ra caramba!” Era um espetáculo da Denise Namura, brasileira radicada na França que tem uma pesquisa valiosa na dança. Seu trabalho segue o nosso dia-a-dia (nossos amores, vaidades, iras, loucuras; nossos pequenos gestos e nossas intenções) de uma forma lúdica, leve e cômica. Penso se ela busca a verdade no seu trabalho, e se pessoalmente a encontra.
Acredito que um trabalho para comunicar algo, alcançar o público (o mais distante e o que tem menos afinidade), deve conter elementos da lacuna que o artista carrega em sua vida. Lacuna que nunca chega a ser preenchida pois parece se desdobrar em questões.
Rainer Maria Rilke em suas “Cartas a um jovem poeta” diz em determinado momento: “Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples 'Preciso', então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso.” (Rilke, 2011, p. 25)
Levando esse pensamento para a Dança, faria a pergunta: É preciso Dançar?, e além dela, O que devo Dançar?
Além das preocupações técnicas e dos floreios, uma das coisas mais difícieis no processo de criação, é a decisão do que mover, para onde e quanto. Quanto me basta para exprimir uma sensação? Que movimento posso fazer que seja verdadeiro para mim e para o público também? Como limitar o que é necessário? Como sobrepor esta necessidade aos meus anseios estéticos? Ao sair do filme “Pina” de Win Wenders, essas perguntas me assaltaram.
Pina Bausch construiu espetáculos belos, poéticos, delicados, profundos .... verdadeiros. Não conheço seus esboços, seus rascunhos e suas questões, posso dizer da grandiosidade que sinto ao assistir seus movimentos; da elevação da minha sensibilidade, do respeito pela artista que cumpriu com seu caminho. É um sentimento que beira ao sublime.
Suas obras encantam, falam do invisível que nos rodeia, da magia dos nossos afetos, da simplicidade da nossa existência. No texto/discurso dos bailarinos, vemos a Pina humana, generosa, que movia os bailarinos através de olhares e questões, que dizia uma palavra, ou não dizia nada; e isso fazia toda a diferença para eles.
Talvez Pina comungasse dos questionamentos de Rilke, e indo além do “É preciso escrever?”, e “É preciso Dançar?”, ela acrescentasse “É preciso Calar?”
Conduzir um processo criativo e despertar a verdade contida nos cantos mais profundos da alma humana, é uma atitude difícil. Qual seria a medida nessa avaliação? O sentimento, a percepção? Algumas palavras brincam no meu pensamento: risco, intuição e confiança. As palavras se misturam e surge arriscar o risco, risco na intuição e confiança arriscada. Na criação não existe certeza, conforto e comodidade; existe a dúvida, o medo e a insegurança. O artista se guia pelo risco, pela intuição e tenta sentir confiança pelas sugestões que vão aparecendo.
Na Psicologia Analítica, Jung descreve o inconsciente como produtor de imagens e sugestões que alcançam o consciente.
O inconsciente move o material simbólico e este muitas vezes se materializa nas obras de arte, alcançando extratos arcaicos comuns a humanidade. É o que faz uma obra de arte sair da categoria “estética” para a categoria”simbólica”. É o que traz o engrandecimento do público, na fala de que gosta, mas não sabe porque gosta. É a sensação de sublime em Pina Bausch. É a verdade proposta por Rilke.
A obra de arte simbólica afeta o artista, afeta o outro, preenche a existência e descobre as certezas, numa ampliação da própria vida.


Acrescento o trailler do filme "Pina" do diretor alemão Win Wenders, para que a imagens e sugestões sobre Pina Bausch possam se completar.



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